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Luiz Fux é o novo Ministro do Supremo Tribunal Federal

Paulo Sérgio Leite Fernandes

Quando eu era garotão, aos dezessete anos de idade, tinha duas esperanças: uma, a de ser escritor famoso; a outra se chamava Lenita. Isso se passou numa cidade bafejada pelo mar. Tentei ambos empreendimentos. A primeira crônica escrita, levada à redação de um jornal, foi destinada à lixeira do Secretário, com o recado: “volte quando souber escrever”. Quanto ao amor desesperado, explico a seguir.

Eu era moleque de praia, como se dizia à época. Nadava bem. Tinha um catamarã, espécie hoje apelidada “hobie cat”. A planta da barca havia sido clonada de um original descaminhado do Havaí. Ainda não existia a “xerox”. Tirara-se cópia numa engenhoca esquisita chamada “termofax”. Amarelava. O veleirinho tinha nome de batismo: Graziela, o mesmo que tem nas profundezas das minhas recordações. Quanto a Lenita, misturava-se em miragem saída de um carteado grã-fino às quatro horas da madrugada (dizia-se que aquelas mulheres, rebrilhantes nas lantejoulas douradas, davam sorte aos jogadores). O veleiro sobreviveu na memória, embora destruído fisicamente por salitre e maresia. Lenita nunca se realizou. Assemelha-se hoje, psicanaliticamente, à mulher-gigante de Casanova. O rapazelho magrelo encostado na mureta do outro lado da avenida não mereceu sequer uma olhada de viés.

Por que recordo as coisas? Li hoje a notícia da indicação oficial do ministro Luiz Fux, carioca da gema, a provimento da vaga deixada aberta por Eros Grau no Supremo Tribunal Federal e achei numa revista eletrônica o “curriculum vitae” daquele juiz, fornecido por ele próprio em confirmação da autenticidade. A origem do magistrado em questão é o Rio de Janeiro, sob a sombra do Cristo Redentor. Morei lá em mocinho, na confluência de Ipanema e Leblon, próximo às ondas sim, atrás do “Country Clube”, querendo com isso dizer que joguei bem futebol. Era canhoto, situação que se harmonizava bastante com meu proselitismo político à época da ditadura de 1964.

A autobiografia do Ministro Luiz Fux – não atual, é certo, porque fornecida em 2005 – me emocionou bastante. Apenas contou o contável. Por exemplo, o trote, muito saudável, segundo descrição que faz. Tive menos sorte. Até hoje, aos setenta e cinco anos, uma eventual mudança de temperatura me faz doerem os resquícios dos seis pontos que levei no queixo depois de ser agredido durante a farra por um calouro enraivecido. Para o Ministro Luiz Fux, formado há trinta e cinco anos e faltando quinze anos para me alcançar, o tempo de universidade já é bem antigo, mas para nós dois – e para outros tantos – é inesquecível.

No meio da entrevista citada o novo Ministro da Suprema Corte reafirma a ascendência israelita. É muito bom, pois aquela nação gerou, produz e exibirá, sobretudo, grandes músicos, diferenciados cientistas ligados à física, química e matemática e incontáveis estudiosos das ciências jurídicas em geral. Muitos criminalistas brasileiros com sangue judeu honram os pretórios do Brasil.

Dir-se-á que devaneio sem muito apoio nos ensinamentos de Mendel, mas tenho visto nos orientais notáveis cirurgiões, excelentes arquitetos e pintores premiados (vejam-se Tomie Ohtake e Manabu Mabe), mas tenho pouca lembrança de jurista gerado no sangue asiático. É questão, segundo a tecnobiologia, de incrustação genética.

A transcrição, posta no Conjur, da autobiografia do Ministro em noviciado, revela o amadurecimento sincero e translúcido de uma alma pura. Devo dizer, sem discrição, que não sou nem nunca fui amigo de juízes, por algumas razões muito simples: a toga e a beca, em primeiro plano, não devem ser muito chegadas. Em segundo lugar, a concordância de hoje pode ser a raiva do amanhã, sendo melhor, portanto, a indiferença pundonorosa. Isso não me impede, entretanto, de dizer publicamente, com a humildade de quem de diferente só apresenta o começo da senectude, que gosto muito da indicação. Evidentemente, só alguém com múltiplos predicamentos poderia concorrer ou ser escolhido para uma função que, segundo afirmei alhures em desacordo com a doutrina, há de integrar, após ungido o candidato, o maior segmento de poder que a nação brasileira tem. Não votei em Dilma Rousseff, mas a presidente tem assumido atitudes que me fazem acreditar na moça. A indicação de Luiz Fux, submetida, é evidente, a aprovação pelo Senado, significa ponderadíssima decisão, merecendo meu aplauso entusiasta. No fim das contas, os cumprimentos são remetidos por quem, a título de pós-graduação, exibe, rábula melhorado, cinquenta e um anos de advocacia criminal exclusiva, com pequenos méritos e poucos pecados (todos têm uns e outros). Vale dizer, para encerrar, que nunca troquei com o Ministro uma só palavra à margem dos vinte ou trinta metros que separam o defensor do assento dos magistrados. Não temos aproximação qualquer. Talvez, por tal circunstância, a alegria receba valorização maior.

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