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Bombas na OAB do Rio de Janeiro?

Paulo Sérgio Leite Fernandes

A sobrevivência tem vantagens mas, infelizmente, o corpo envelhece e os movimentos ficam mais lerdos, sugerindo uma outra forma de comunicação com o mundo. Se possível fosse, o velho seria somente uma espécie de cabeça espetada numa estaca, respondendo a perguntas e sendo transportado de um lado a outro no tripé. Dentro de tal fabulação há uma dose qualquer de otimismo: a memória se estende e o passado ganha forma sofisticada de explicação. Diga-se isso em função do noticiário respeitante a duas ou três bombas colocadas no prédio (escadaria?) da Ordem dos Advogados do Brasil, Rio de Janeiro. Aqueles artefatos, popularmente, são chamados “cabeças-de-negro”. No fundo, constituem uma porção de pólvora negra fazendo um barulhão quando explode. Aquilo fica perigoso quando três ou quatro artefatos do tipo, raspados, são comprimidos num bloco só. Certa vez, quase meio século passado, defendi adolescente rico que socou pólvora numa lata de leite, atirando-a numa escarpa sob uma barraca de turistas. Não havia ninguém lá dentro, salvo um cão de estimação. O bicho morreu. Dentro do contexto, uma “cabeça-de-negro” não faz verão, mas três ou quatro juntas fazem (sem qualquer dose de racismo).

Retornando à OAB, diga-se que eu já era grandinho quando o Conselho Federal da OAB se reunia no Rio de Janeiro. A gente chegava de avião, descendo no Santos Dumont. Havia um parque entre o aeroporto e o prédio. Naquele tempo era possível carregar uma arma na pasta. O trajeto, à noite, dava medo. Ocasionalmente, o revólver ia escondido no bolso da calça. Foi no Conselho, ou lá perto, que conheci Sobral Pinto, Heleno Fragoso, Serrano Neves, Carlos Araújo Lima e outros. Lembrei disso anteontem, em Brasília, quando quis entrar no anexo do Tribunal Regional Federal, fora de horário, sendo impedido. Disse ao serventuário: “– fui amigo do gajo que deu nome a esse prédio, ou seja, de Orlando Gomes”. Não adiantou. A alma boa do grande jurista não conseguiu abrir as portas do edifício.

Já contei, em outra crônica, incidente que tive com Sobral Pinto, enquanto ele, já bem antigo, frequentava o Conselho Federal. Ele usava o preto e não gostava de objeções. Saiu do plenário, chutando tudo, depois de discussão que tivemos. No fim das contas, ganhara direito a tanto.

Volte-se às bombas na OAB carioca: os jovens viram muito pouco dessas extravagâncias. Muitos, quando adolescentes, já se encontravam dentro da chamada “abertura”, enfraquecendo-se, portanto, o período autoritário. Eu vi tudo muito antes, pois em 1964 já estava metido, embora com moderação, no processo politicoideológico instaurado oficialmente em 31 de março mas consumado no dia 1° de abril (o dia da mentira). Sei bem disso porque o golpe me foi anunciado por telefone às duas horas da madrugada. É história comprida. Quando estiver disposto, conto meu pedaço.

As “cabeças-de-negro” referidas, postas em confronto com a época ditatorial, são folguedos de criança. Seabra Fagundes, o filho, mais alguns, sabem muito bem disso, pois Lyda Monteiro da Silva morreu abrindo carta explosiva mandada ao Presidente. Para se ter ideia da minha antiguidade, fui amigo do pai dele, não muito, mas conhecido. Vivi o decênio em que o Riocentro foi palco de um desastre envolvendo o terrorismo oficial. O petardo explodiu na barriga de dois trânsfugas mal-intencionados. Soube de muita coisa, inclusive de Baumgartnen e uma companheira, sumidos os dois após embarcarem ficticiamente numa lancha atracada em marina da Cidade Maravilhosa. Os peixes comeram o casal, com certeza. Passei durante alguns biênios ao lado da mesa pertencente a Lyda, transformado o móvel, depois, em símbolo enegrecido esburacado pela explosão destinada a um e matando a outra. Assim, não me surpreende o pipocar nas escadas internas da sede daquela Seccional do Rio de Janeiro. É, talvez, brincadeira de mau-gosto ou, quem sabe, aviso para não se ir adiante na Comissão da Verdade, advertência inócua porque, aqui, a limpeza dos sujos lençóis da ditadura deve ser implacável, embora a grande maioria dos carrascos já esteja prestando contas no além. Entretanto, curiosamente, os mortos continuam vivos, sendo venerados ou escarnecidos pela história. Nós, os humanos, somos feitos só do que passou. O resto é resto.

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