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Meninas de programa usam maquininhas

 Paulo Sérgio Leite Fernandes

         O cronista, às 05:00 horas, escuro ainda, já está esperto. É a única hora em que liga a TV, ressalvados alguns documentários muito educativos sobre o comportamento dos animais selvagens, com o que os homens aprendem muito.

A televisão é má conselheira para a sustentação das tarefas diárias. Hoje, entretanto, o receptor foi aberto para o primeiro jornal, que é do SBT. Ali, um casal expôs, sorridente, a notícia mais importante das últimas 24 horas: em Minas Gerais, Estado extremamente conservador, houve autorização para que as chamadas “garotas de programa” se organizem em microempresas, transformando-se em pessoas jurídicas. A informação é confusa, pois não se pode sequer cogitar de contrato social especificando que a destinação é o comércio do corpo. Ou então, quem sabe, é possível, pois os tempos mudaram. A hipótese, em linguagem israelita, é “pixulé”, pois já há, para quem quiser, casamento entre pessoas do mesmo sexo, só a título de exemplo. Dentro do contexto, o bem jurídico visado na constituição de empresas do tipo pode ser ética e licitamente sustentável. É bom lembrar, episodicamente, hipóteses de legitimação do cáften, ou gigolô. No início da advocacia criminal, cinquenta e quatro anos atrás, o cronista conheceu um deles, o “Nêgo Lando”, bom de samba e de navalha. Sem ser repetitivo – o tema já foi tratado em outra crônica –, aquele mulato brigava vestindo um tamanco na mão esquerda, defendendo-se das cutiladas do outro. Morreu num night club do porto, com uma bala de 9 mm no traseiro. Decididamente, uma viagem desastrada. Voltando-se às garotas de programa, o jornal do SBT mostrou entrevista de umas duas, maquininhas de cartão de crédito nas mãos, argumentando até mesmo com o parcelamento e acompanhamento do cliente por mais tempo que o usual em atividades tais. Os aspectos éticos são despiciendos, porque Pompeia, aquela do Vesúvio, já tinha os seus bordéis, valendo dizer que a profissão é uma das primeiras no mundo. As mulheres estão permanentemente presentes, numa ou noutra condição, cuidando-se de realçar que nas guerras santas, enquanto os cruzados partiam para a busca do “Graal”, não se permitia que as meretrizes acompanhassem os cavaleiros. Estes ficavam irritadíssimos com a abstinência e desovavam os hormônios nas cidades conquistadas aos infiéis. Ainda hoje há isso no mundo moderno, segundo notícias postas nos matutinos.

As autoridades mineiras, repita-se, parecem ter concordado com a organização referida. É relembrar, aqui em São Paulo, a existência da associação (de fato ou de direito) chamada “Daspu”, com sede, segundo consta, na rua Augusta, rivalizando com a hoje rescindida “Daslu”. Fixou-se, inclusive, um certo tipo de vestimenta, usável, de acordo com as circunstâncias, por senhoras sérias em reuniões de gala.

O tema parece jocoso, mas tem boa dose de seriedade. Preferível é visá-lo, em vez de comentar o oceano de sangue vertente dos canais televisivos, caprichando cada qual na aterrorização da cidadania. Menos mal.

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