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Santiago Andrade, cinegrafista carioca, é morto


Paulo Sérgio Leite Fernandes

No dia 10 do corrente morreu no Rio de Janeiro o cinegrafista Santiago Andrade, em razão de lesões produzidas por rojão que lhe acertou o crânio, tudo no meio de manifestação popular contra um monte de coisas, sendo preciso assentar que muitos nem sabiam a razão de estarem ali. Simplesmente estavam e participavam. Dificilmente acontece nas ruas, hoje, incidente não gravado por uma câmera ou por alguém. Assim, a cena terrível foi captada em seu momento exato.

Uma associação de jornalistas investigativos contou mais ou menos, a partir de certa data, o número de agressões ou ferimentos produzidos em combate (ou no trabalho?). Cerca de cento e dezessete, incluindo-se nesse número, certamente, o fotógrafo Sérgio Andrade da Silva, vítima de disparo de bala de borracha. O projétil lhe cegou o olho esquerdo. O fato aconteceu em 13 de junho de 2013, no meio de manifestação contrária ao aumento das tarifas de ônibus. O cinegrafista carioca é morto. Sérgio moveu ação contra o Governo do Estado de São Paulo. Prevê-se duração de dez ou mais anos para o término do processo. Dezesseis anos atrás, um rapazelho foi algemado às grades de uma cela e deixado sozinho numa Delegacia de Polícia. Houve incêndio. A ação movida contra o Estado terminou há poucos meses. Aquele menino é, agora, um aleijão. Obteve uns trocados na execução do acórdão. O apoucamento da indenização tem alguma razão de ser: pobre ganha pouco e precisa de pouco para a sobrevivência.

Sérgio, o quase cego, foi vítima da polícia militar. Santiago faleceu em razão de ato praticado por tresloucado manifestante. Tocante ao morto, o Brasil inteiro se manifesta pois, no final das contas, o agressor era um marginal. Já dizendo com o fotógrafo deixado com a órbita vazia, não houve grande manifestação porque, no fim de tudo, o disparo havia sido feito por agente da Lei enquanto reprimia os protestos. É preciso notar, entretanto, que não há grande diferença entre aquele que atinge a cabeça de um homem com fogos de artifício e o outro que, garantindo em tese a legalidade, atira contra a multidão. Atrás de tudo, é a violência contra a violência, o revide a desbordamento físico, o “toma lá-dá cá”. Uma turba ensandecida combatendo uma polícia desestabilizada. Quando o fotografo Sérgio sofreu a lesão gravíssima relatada, a boca ruim do cronista advertiu: “-Vai morrer gente”. Desgraçadamente, aconteceu. Não se pense que o fato tristíssimo servirá de acalmia, como se fora um espantalho posto no fim do caminho. Toda ação produz uma outra em sentido oposto. O problema é muito mais complicado, merecendo estudos psicanalíticos sofisticados. Daquilo tudo resta, por enquanto, um saldo muito feio de consequências: Santiago deixa uma lembrança boa e uma carta bonita escrita pela filha; Sérgio está vivo e meio cego. Usa prótese orbitária, mas enxerga pela metade. Certa vez, muitos anos atrás, o cronista assumiu causa de cirurgião plástico que perdera um dos olhos em razão de soco desferido contra seus óculos. A vítima, a partir dali, ficou privada do sentido de profundidade. Nunca mais pôde usar o bisturi.

Resta o lamento profundo dos circunstantes. O autor do homicídio (ou lesão seguida de morte?) há de pagar preço caro. Vira leproso. Não escapa. Tocante ao policial militar gerador do ferimento seriíssimo produzido em Sérgio, leva a vantagem de se vestir como dezenas de outros uniformizados e igualmente despersonalizados. Um, o trânsfuga enlouquecido, já foi identificado. O outro nunca o será. Fica, pairando no vazio, uma bala de borracha que o Governo do Estado, o Secretário da Segurança Pública, mais a “PM”, teimam em manter viva, a exemplo de besouro mortífero zumbindo em nome da santidade. Parece filme de ficção científica visto no passado, espécie de “drone” em miniatura vigiando o movimento das criaturas. Lá, no filme, era o produto da imaginação. Aqui, satanicamente, é real.

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