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O arrependimento nem sempre é moeda de troca (A propósito dos “anos de chumbo”)

Paulo Sérgio Leite Fernandes

O coronel reformado Paulo Malhães foi, segundo consta, à Comissão Nacional da Verdade, admitindo ter sido designado, lá atrás, para dar fim a corpos de torturados, retirando-lhes as arcadas dentárias, decepando-lhes os dedos e lhes abrindo os ventres, equilibrando o peso e capacidade de flutuação numa espécie de meia-profundidade. Permitia-se com isso que os restos mortais fossem arrastados por correnteza, sem exposição à superfície.

Não se cuidava de técnica nova. Era praticada havia séculos em situações políticas semelhantes, exceção feita, na antiguidade, à identificação da criatura pelas digitais. O militar teria admitido, em princípio, participação no desaparecimento do cadáver de Rubens Paiva, desmentindo-se depois.

As fotos mostradas pelos jornais de hoje, 26 de março de 2014, expõem um homem mal barbeado (muitos o fazem propositalmente. Pode ser moda), um corpo avantajado e gorduroso. A criatura foi fotografada enquanto acachapada numa cadeira de braços, prestando declarações aos membros da citada Comissão. As explicações ofertadas sobre Rubens Paiva continuam falhas.

À margem dos retratos do confitente, ou poucos dias antes, vi de passagem, num monitor de televisão, pequeno trecho de entrevista ou coisa parecida prestada pelo General da Reserva Newton Cruz. O rosto do entrevistado é diferente do outro. Não havia sons no aparelho. Notava-se apenas uma cara magra, angulosa, agressiva, exibindo sinais de raiva e maldade. Em outros termos, o homem parecia enfurecido. Poderia estar até cuspindo, em função da energia posta no confronto verbal com o opositor (o entrevistador?). Vem de Antonio Damásio, dos maiores neurocientistas que o mundo tem, afirmativa sem grande originalidade, pois qualquer iletrado sabe disso: é muito difícil, mesmo a artistas experientes, mostrar na face emoção diversa da verdadeira, creditando-se a possibilidade somente a grandes expoentes da ribalta. Havia um intérprete do cinema clássico, transformado inclusive em “Sir“ por uma Rainha de Inglaterra, capaz disso. Podia pretextar externamente alegria, tristeza, ódio, medo enfim, permanecendo internamente extremamente frio. Parece que Antonio Fagundes faz isso. Tem interpretações excelentes, deixa o palco, janta sossegadamente e desfruta sono de justo. Dentro do contexto, o pecador Paulo Malhães e o General Newton Cruz não puderam disfarçar o que diziam. Um buscava algum padre velho a absolvê-lo; o outro não. Demonstrava, na face, todo o conjunto de contorções que o haviam animado, durante os anos de chumbo, a participar do lado negro da força. Dá-se a isso o nome de convicção. As consequências são dramaticamente curiosas: o primeiro, enquanto explica sua participação, expele as culpas, procurando comiseração, ou perdão, ou benevolência, quiçá, firmado numa imaginária vantagem além-túmulo; o segundo não. Reage à maneira de fera enervada, escudado nas crendices básicas impulsionadoras do combate a ideologias reprimidas ao tempo. À frente, existe a reescritura da história do Brasil, um trecho aqui, um episódio ali, um grito de dor acolá, viajando os partícipes (torturadores e torturados, prisioneiros e carcereiros, supliciados e seus algozes) em naves diferentes: uma leva os passageiros a lugar onde as feridas produzidas pelos alicates e açoites podem servir de testemunho de fé; a outra nau é aquela enfrentando a escuridão e a repulsa do barqueiro Caronte. Ali, mesmo com moedas de reserva para pagamento da passagem, os embarcadiços não encontram abrigo, a não ser nas maiores profundezas descritas por Dante Alighieri (ou Durante di Alighiero degli Alighieri). As duas expectativas (a do sofredor e a de quem faz sofrer) se fixaram, há milênios, no chamado inconsciente coletivo: quem faz o mal, dependendo da proporção feita, não tem desculpa.

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