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Entre José Wilker, Dona Flor e Vadinho

Paulo Sérgio Leite Fernandes


Jorge Amado escreveu muito, todos sabem. Diz quem o conheceu de perto que, nos manuscritos ou rascunhos ele desenhava rusticamente os personagens, para não correr o risco de misturar uma cara na outra. Por exemplo, colocar bigode em quem não o tinha, a partir de certa página ou embaralhando trechos. De Jorge Amado li bastante. Gosto mais, entretanto, de “Capitães de Areia” e “Dona Flor e Seus Dois Maridos”. O primeiro é, seguramente, um romance muito gostoso, suave às vezes e violento em outras, mas guardando ligação com o mar, as praias bem lisas e os primeiros amores da meninada. Apaixonei-me por “Dona Flor” personificada em filme por Sônia Braga e José Wilker, o mesmo que faleceu subitamente, em 05 de abril do corrente ano, vítima de infarto inconcebível. Foi de repente, de acordo com quem esteve próximo. O Brasil inteiro comentou a morte. Wilker foi cremado, presentes centenas de amigos e curiosos se fim.

Leio e releio seguidamente “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, não só pela história em si, mas também pela profunda análise psicológica representada no tema. Flor, vale a pena recordar, ficou viúva moça, casou-se depois, se a memória não falha, com o farmacêutico da esquina, um tal de doutor Teodoro, muito bom na alquimia, mas desajeitado no cumprimento das tarefas ínsitas ao casamento. Em síntese, Teodoro era ruim de cama. Vai daí, nas oportunidades em que havia o chamado conúbio, Dona Flor lançava o olhar sobre o guarda-roupa existente no quarto. Ali estava Vadinho, pelado como Deus o fizera, exibindo aquele ar trocista que punha no rosto enquanto vivo. A propósito, é bom lembrar que “Vadinho”, em Dona Flor, também se foi impactantemente, mas numa terça-feira gorda de carnaval, enquanto, fantasiado, dançava misturado à turba. Lembro, aqui, um pedaço da história, dizendo com o dia em que Dona Flor contraiu segundas núpcias com o farmacêutico. Ao lado do casal que se dirigia à igreja caminhava o peralta, desnudo sim, mas não visto pelo populacho. Era simplesmente o fantasma redivivo. Deve ter sido muito engraçada a filmagem da cena, pois Wilker, ali, não vestia sequer uma tanga ou fio dental.

Não sei por quais cargas d’água, sempre liguei Dona Flor a Memorial do Convento, embora as histórias sejam diferentes, na medida em que Saramago constrói “Blimunda” como mulher que desbastava o que ia na alma dos homens, perdendo tal qualidade, momentaneamente, se comesse um pedaço de pão posto sob o travesseiro, uma espécie de comunhão, quem sabe, para não divisar ou adivinhar os pecados dos outros, sem exceção de “Baltasar Sete-Sóis”. Minha atração pelo tema sempre foi complicada. Cheguei a ter um casal de cães com os nomes desses dois personagens. No fim das contas, José Wilker e Vadinho devem estar por aí, quem sabe sobre um ou outro guarda-roupa, valendo a pena, com alguma preguiça, é bem verdade, uma tentativa de adequação à interpretação psicanalítica do tema. Como diriam alguns filósofos, “Vade Retro”.

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