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Rogério Lauria Tucci morreu

Paulo Sérgio Leite Fernandes

A morte é implacável, mas nunca nos acostumamos com ela. A notícia de partida chega acompanhada de dor, pena ou saudade, aumentando tudo na medida da aproximação maior com quem se foi. É assim. Os amigos somem e deixam extravagante sensação de culpa pela sobrevivência. Não se apercebem os viventes de que a hora é de todos, devagar ou rapidamente, fulminante ou maldosa, mas vem. Há, desde os remotíssimos tempos dos hominídeos, e mesmo antes destes, uma espécie de roleta inafastável, existido diferença marcante entre as engrenagens de uma e de outras postas em grandes ou pequenos sorteios: enquanto nestas a sorte é mostrada excepcionalmente, naquela a numerologia é inexorável. Basta esperar. No meio-tempo, sucedem-se os velórios, os choros, os pêsames e as visitas às lápides, encontros concretizados a título de reflexões nos momentos difíceis. Num sentido bem pragmático, o pranteamento excede os chamados seres pensantes. Observou-se outro dia um documentário referente a elefantes. Um grupo destes rodeava companheiro morto. Não queriam largá-lo. Acarinhavam-no até, em inconformismo evidente. Isso faz lembrar os tempos de criança, quando o garoto assistia ao filme “Beau Geste”. Ali, irmãos haviam combinado que a partida para o além seria feita à moda “viking”, uma galeota em chamas sumindo no horizonte e levando o defunto, evento heroico sim, mas desejado por todo guerreiro. Guardo, a respeito disso, tal esperança folhetinesca. No fim das contas, os homens, mesmo os velhos, continuam meninos grandes.

Recebo hoje – e só hoje – a notícia de que Rogério Lauria Tucci resolveu fazer a última viagem, corpo velado na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, onde lecionou durante muitos e muitos anos. Deveria ter sabido antes, acompanhando o velório e deixando meu abraço a José Rogério, mais familiares. Aquilo passou perto mas, repito, não houve aviso. Num certo sentido, fujo dos obituários, porque aquilo começa a machucar demais.

Rogério Lauria Tucci fez muito bem ao meu clã, confesso-o sem rebuços, trinta anos atrás, quem sabe, orientando Ana Maria Babette, minha primeira mulher, em pós-graduação difícil. A relação de causalidade entre provocações estressantes é imensa, fazendo recordar uma época em que, muito jovem, o casal descansava num banco da Praça da Sé (havia bancos lá), devorando às pressas um sanduíche antes da chegança à vetusta escola de Direito. Já se percebe o caminho dos fios do novelo: passado e presente se misturam à constatação do episódio traumático.

Não há muito mais a dizer. Títulos muitos Rogério Lauria Tucci teve. E tem, pois o homem revive a cada citação inscrita em livros e teses. Fala-se nos doutrinadores, com efeito, mesmo nos antigos, como se ainda estivessem conosco, valendo o fenômeno muito mais para os jovens, enquanto transcrevem trechos de doutrina. É esquisito, mas os idos, na verdade, não vão. Permanecem sempre, ganhando força a cada debate forense ou disputa doutrinária. Tucci está por aqui. Quanto ao mais, “La nave va”.

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